Estratégias de CEO que poucos conhecem: como funciona um processo de turnaround

Quando uma empresa enfrenta uma crise de resultados, perda de eficiência ou dificuldades para executar sua estratégia, é comum que a primeira reação seja olhar para os números.

Mas um verdadeiro processo de *turnaround* precisa ir muito além dos indicadores financeiros.

É necessário entender o que realmente acontece dentro da organização.

Uma das primeiras coisas que aprendi realizando processos de *turnaround* é que a verdade sobre uma empresa nem sempre está na apresentação feita pela diretoria. Muitas vezes, existe uma grande diferença entre aquilo que a liderança acredita que acontece, aquilo que os gestores dizem que acontece e aquilo que realmente acontece na operação.

Por isso, o diagnóstico precisa começar pela realidade.

 

O diagnóstico começa de baixo para cima

Quando chego a uma empresa para realizar um processo de *turnaround*, não começo necessariamente conversando com o presidente ou com os diretores.

Começo pela linha de baixo.

Converso com gerentes, supervisores e colaboradores que estão diretamente envolvidos na operação. É ali que consigo entender como os processos realmente funcionam, como as decisões são tomadas, como os resultados são acompanhados e quais são os problemas que, muitas vezes, não chegam à diretoria.

 

A lógica é simples: confrontar diferentes percepções sobre a mesma empresa.

Se dez profissionais descrevem de maneiras completamente diferentes como funciona o processo de *follow-up*, como são realizados os feedbacks, quem é responsável por determinada atividade ou como as decisões são tomadas, existe um problema muito maior do que uma simples falha de comunicação.

Existe falta de metodologia.

É nesse ponto que aparece um dos conceitos mais importantes de um diagnóstico de gestão: **a coerência estrutural**.

Uma empresa bem gerenciada precisa apresentar coerência entre aquilo que foi planejado, aquilo que a liderança comunica e aquilo que as pessoas efetivamente executam.

Quando diretoria, gerência e operação apresentam versões diferentes da mesma realidade, a organização passa a funcionar baseada em interpretações individuais.

E isso é um dos sinais mais claros de que existe um problema de gestão.

 

Cultura não muda sem mudar a liderança

Existe uma frase que resume uma parte importante da minha visão sobre gestão:

**Para mudar a cultura, tem que mudar a liderança.**

Isso acontece porque a responsabilidade pela performance não pode ser colocada exclusivamente sobre quem está na operação.

Se uma empresa não possui processos claros, metodologia, rotina de acompanhamento ou disciplina de execução, precisamos olhar para quem deveria ter criado, implementado e cobrado essa estrutura.

A liderança é responsável por estabelecer o método, comunicar as expectativas, definir responsabilidades e acompanhar a execução.

Por isso, em um processo de *turnaround*, uma das etapas mais importantes é avaliar quem está conduzindo a organização.

E essa avaliação não acontece apenas com base no cargo, na experiência ou no tempo de empresa.

Existem três dimensões fundamentais.

 

1. Conhecimento técnico

O primeiro ponto é o conhecimento técnico.

O líder precisa dominar aquilo que está conduzindo. Precisa compreender os processos, os indicadores, os desafios e as particularidades da sua área.

Não basta ocupar uma posição de liderança.

Um gestor que não possui domínio técnico terá dificuldade para orientar a equipe, tomar decisões e, principalmente, cobrar resultados com propriedade.

 

2. A arte de mover pessoas

Conhecimento técnico, entretanto, não é suficiente.

Um líder precisa saber mover pessoas.

Isso significa conseguir transformar planejamento em ação, mobilizar equipes e fazer com que diferentes profissionais caminhem na mesma direção.

Uma estratégia pode ser excelente no papel, mas não produzir absolutamente nada se o líder não conseguir fazer a organização executá-la.

Liderança é capacidade de transformar intenção em movimento.

 

3. Capacidade de lidar com conflitos e comunicação

A terceira dimensão é a capacidade de lidar com conflitos e estabelecer uma comunicação clara e racional.

Conflitos fazem parte de qualquer empresa. O problema não é necessariamente o conflito. O problema é quando a liderança não consegue administrá-lo.

É preciso saber “jogar o jogo do conflito”, enfrentar situações difíceis, promover equilíbrio e manter a organização funcionando mesmo diante das divergências.

Ao longo dos meus processos de *turnaround*, encontrei muitas vezes líderes com bom conhecimento técnico — uma nota 7, por exemplo — e alguma capacidade de mover pessoas — nota 5 —, mas praticamente nenhuma capacidade de lidar com conflitos e comunicação — nota 0.

E essa deficiência pode comprometer todo o restante.

Porque, no final, o papel do líder é um só:

**fazer as coisas acontecerem.**

 

O líder precisa fazer acontecer

Liderança não pode ser confundida com posição hierárquica, discurso motivacional ou popularidade dentro da empresa.

O líder precisa transformar planejamento em execução.

Isso significa estabelecer processos, definir responsabilidades, acompanhar indicadores, realizar *follow-ups*, cobrar resultados e garantir que cada atividade tenha um responsável claramente identificado.

Tudo precisa ter um **dono**.

Não basta determinar que uma determinada ação precisa acontecer. É necessário saber quem será responsável por fazê-la acontecer, qual resultado é esperado, qual prazo deve ser cumprido e como será realizado o acompanhamento.

É essa disciplina que transforma estratégia em operação.

 

O problema do líder bonzinho

Existe outro comportamento que encontro com frequência nas organizações: o líder que quer ser amado.

Esse líder evita cobranças, não gosta de gerar desconforto, posterga decisões difíceis e muitas vezes prefere preservar sua relação com a equipe a enfrentar os problemas que precisam ser enfrentados.

Mas liderança não é um concurso de popularidade.

Às vezes, o líder precisa incomodar.

Precisa cobrar um resultado que não foi alcançado. Precisa confrontar uma postura inadequada. Precisa questionar uma decisão equivocada. Precisa tomar uma decisão que não será popular.

Isso não significa defender uma liderança agressiva ou autoritária.

Significa entender que **clareza, responsabilidade e cobrança fazem parte da gestão**.

Uma empresa não sobrevive porque seus líderes são queridos. Ela sobrevive porque consegue produzir resultados de forma consistente.

 

Quando é preciso trocar a liderança

Em um processo de *turnaround*, uma das conclusões possíveis do diagnóstico é que determinadas posições de liderança precisam ser substituídas.

Isso não acontece simplesmente porque uma pessoa não apresentou um bom resultado.

A questão é mais profunda.

Se os diretores não conseguem executar o planejamento estratégico, se os gestores não possuem metodologia, se cada área trabalha de uma maneira diferente ou se ninguém consegue explicar claramente quem é responsável por determinada entrega, existe um problema estrutural.

E a liderança precisa assumir essa responsabilidade.

Se diferentes diretores e gerentes apresentam versões incompatíveis sobre os processos da empresa, se ninguém sabe exatamente quem é responsável por determinadas entregas ou se o planejamento estratégico não chega à operação, não adianta simplesmente cobrar mais os colaboradores.

É preciso intervir na liderança.

Porque, se a liderança é responsável por estabelecer o método, a ausência de método também precisa ser atribuída à liderança.

 

Se o time está ruim, olhe para quem lidera

Uma das perguntas que considero fundamentais em um diagnóstico é:

**Quem contratou essas pessoas?**

Se um time apresenta desempenho ruim, não basta apontar para os colaboradores.

É preciso entender quem os contratou, quem os treinou, quem definiu suas metas, quem acompanhou seus resultados e quem decidiu mantê-los na organização.

O profissional recebeu treinamento?

Sabe exatamente o que precisa entregar?

Possui metas claras?

Existe acompanhamento?

Recebe *feedback*?

A liderança tomou alguma decisão quando os resultados começaram a cair?

A questão deixa de ser simplesmente:

“Quem está errando?” E passa a ser:

“Qual estrutura de liderança permitiu que esse erro continuasse acontecendo?”

Essa mudança de perspectiva é fundamental para um processo de transformação.

 

A empresa precisa de método, não de improviso

Muitas empresas possuem planejamento estratégico, metas, reuniões e apresentações sofisticadas.

O problema é o que acontece depois. O planejamento termina, a reunião acaba e a organização volta para a rotina. É aí que muitas estratégias morrem.

Uma transformação real exige que processo e metodologia estejam presentes nos **365 dias do ano**. Não basta criar uma estratégia. É preciso criar uma rotina de gestão capaz de sustentá-la.

Isso significa acompanhamento constante, indicadores, reuniões de performance, responsabilidades claramente definidas, cobrança e correção de rota.

A gestão não pode depender da memória, da boa vontade ou da iniciativa individual de determinadas pessoas.

Precisa existir método.

 

Comunicação também é gestão

Outro sinal importante de uma organização que precisa passar por uma transformação está na comunicação da liderança.

Quando o discurso é excessivamente individualista, quando o líder fala constantemente em “eu” e pouco em “nós”, quando cada diretor apresenta uma versão diferente da estratégia ou quando as pessoas não sabem exatamente para onde a empresa está indo, existe um problema de alinhamento.

Uma organização precisa falar a mesma língua.

O planejamento estratégico precisa chegar à operação.

A liderança precisa compreender o que foi definido.

A gerência precisa saber como executar.

E o colaborador precisa entender qual é o seu papel dentro dessa estrutura.

Quando isso acontece, existe coerência.

Quando não acontece, existe ruído.

 

Turnaround é uma transformação de gestão

Um processo de *turnaround* não começa simplesmente cortando custos ou tentando aumentar as vendas.

Ele começa entendendo a realidade.

É preciso ouvir quem está na operação, confrontar informações, identificar inconsistências, avaliar a liderança, entender os processos e descobrir onde a metodologia deixou de funcionar.

O diagnóstico precisa revelar a diferença entre o que a empresa diz que faz e aquilo que realmente faz.

A partir daí, é possível construir uma nova estrutura.

Uma estrutura baseada em **processo, metodologia, responsabilidade, acompanhamento, execução e cobrança**.

No final, a pergunta mais importante não é apenas: “Por que a empresa não está dando resultado?”

A pergunta é:

“Existe uma liderança capaz de transformar estratégia em execução todos os dias?” Porque resultado não acontece por acaso. Resultado é consequência de uma estrutura de gestão capaz de fazer as coisas acontecerem — hoje, amanhã e nos 365 dias do ano.

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